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Fibromialgia: como fadiga, músculo e estresse se integram

Na fibromialgia, fadiga, músculo e estresse não devem ser analisados de forma isolada. A condição envolve sensibilização central, alterações no metabolismo energético, função muscular e eixo HPA, compondo uma fisiopatologia multifatorial que desafia o raciocínio clínico.

A fibromialgia é uma das síndromes dolorosas crônicas mais prevalentes na prática clínica. Estima-se que entre 2% e 4% da população mundial conviva com essa condição, com maior prevalência em mulheres.

Caracterizada por dor musculoesquelética difusa, fadiga persistente e alterações do sono, a fibromialgia ainda representa um desafio diagnóstico e terapêutico. Em muitos casos, os exames laboratoriais e de imagem não explicam a intensidade dos sintomas relatados.

Atualmente, entende-se que a condição não está relacionada apenas à dor muscular, mas envolve alterações neurológicas, hormonais e metabólicas.

Nesse contexto, entender como músculo, função mitocondrial, eixo do estresse e modulação da dor se conectam é fundamental para compreender a fisiopatologia da fibromialgia. Para iniciar essa análise, é importante retomar a definição clínica da fibromialgia.

O que é fibromialgia e o que causa?

A fibromialgia é uma síndrome caracterizada por dor musculoesquelética crônica, difusa e persistente, frequentemente associada à fadiga, distúrbios do sono e alterações cognitivas.

Sua fisiopatologia é multifatorial e envolve alterações na forma como o sistema nervoso processa e modula a dor. Não se trata de uma doença inflamatória clássica, nem de uma lesão estrutural evidente.

Entre os principais mecanismos envolvidos estão:

  • sensibilização central da dor
  • disfunção do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HPA)
  • alterações na neurotransmissão
  • estresse oxidativo
  • disfunção mitocondrial
  • alterações na modulação endocanabinoide

 

Entre esses mecanismos, a sensibilização central ajuda a explicar por que a dor pode ser tão intensa. Esses fatores interagem entre si e contribuem para a manutenção dos sintomas ao longo do tempo. A seguir, compreenda como esses mecanismos se integram na fisiopatologia da condição.

A dor, portanto, deve ser compreendida como resultado de alterações na percepção e na modulação do estímulo doloroso.

Por que a dor na fibromialgia é tão intensa?

A intensidade da dor na fibromialgia está associada à disfunção na modulação da dor, com aumento da sensibilidade do sistema nervoso central. Em muitos pacientes, não há lesões estruturais proporcionais à intensidade da dor percebida.

Como a sensibilização amplifica a percepção da dor

Ilustração mostra nociceptores periféricos, vias ascendentes, cérebro sensibilizado e menor atividade das vias descendentes da dor.
Vias de dor envolvidas na sensibilização central da fibromialgia.

1 – Os nociceptores periféricos tornam-se mais sensíveis e passam a responder a estímulos leves. 

2 – Esse sinal é transmitido pela medula espinhal até o cérebro por meio das vias ascendentes.

3 – Quando o sistema nervoso está sensibilizado, o cérebro interpreta esses estímulos como mais intensos do que realmente são.

4 – Além disso, o sistema inibitório descendente, responsável por modular a dor, apresenta menor atividade. 

Há também redução da ação de neurotransmissores como serotonina e noradrenalina, que normalmente ajudam a controlar a percepção dolorosa. Como resultado, o organismo perde parte da capacidade de modular a dor, favorecendo a hipersensibilidade dolorosa.

Entender essas alterações permite direcionar estratégias que visem modular a dor e melhorar a qualidade de vida do paciente. Além das vias clássicas de modulação da dor, o sistema endocanabinoide também participa desse equilíbrio.

Sistema endocanabinoide (SEC) e modulação da dor na fibromialgia

O sistema endocanabinoide (SEC) participa da regulação da dor, do humor, do sono, da inflamação e da resposta ao estresse. Sua ação está relacionada à manutenção da homeostase do organismo.

Em pacientes com fibromialgia, acredita-se que possa existir um desequilíbrio na sinalização endocanabinoide, o que compromete a capacidade do organismo de modular a dor e o estresse.

Esse cenário pode estar associado a:

  • aumento da sensibilidade à dor
  • pior regulação inflamatória
  • alterações do sono
  • maior vulnerabilidade ao estresse
  • pior adaptação fisiológica a estímulos dolorosos

 

Sob essa perspectiva, a modulação do sistema endocanabinoide tem sido investigada como estratégia terapêutica no manejo da fibromialgia, especialmente em relação à dor crônica. 

Nesse contexto, torna-se relevante explorar compostos com ação sobre esse sistema. A partir desse racional, compostos com interação sobre o sistema endocanabinoide ganham relevância no debate científico.

Efeitos do ß-cariofileno na fibromialgia

O ß-cariofileno é um composto bioativo com ação sobre o sistema endocanabinoide. Ele atua como agonista seletivo do receptor CB2, envolvido na modulação da dor e da resposta inflamatória.

A ativação do receptor CB2 está associada à redução da resposta inflamatória e à modulação da sinalização dolorosa.

Em pacientes com fibromialgia, observa-se desregulação dos mecanismos de modulação da dor e aumento da neuroinflamação.

Estudos indicam que o ß-cariofileno pode:

  • reduzir a neuroinflamação
  • modular a dor crônica
  • diminuir a ativação de nociceptores
  • contribuir para o equilíbrio da resposta inflamatória

 

Esses efeitos podem contribuir para a melhora da dor, da sensibilidade aumentada e dos sintomas associados à fibromialgia. Para além da modulação da dor, considerar o músculo como tecido metabolicamente ativo amplia a compreensão da fisiopatologia.

Embora a dor seja central na fibromialgia, o músculo também participa da expressão funcional da condição.

Qual é o papel do músculo na fibromialgia?

O músculo esquelético não exerce apenas função mecânica. Ele também atua como um tecido metabolicamente ativo, com função importante na regulação energética e metabólica.

Em indivíduos com fibromialgia, o músculo apresenta alterações funcionais relevantes. Entre elas:

  • menor capacidade oxidativa
  • redução da resistência ao esforço
  • fadiga precoce
  • recuperação muscular mais lenta
  • sensação de fraqueza muscular

 

A redução da eficiência energética muscular, frequentemente relacionada à disfunção mitocondrial, contribui para a sensação persistente de cansaço, intolerância ao exercício e limitação funcional. A seguir, explore como a disfunção mitocondrial contribui para essas alterações musculares.

Quando a função muscular é analisada sob a perspectiva metabólica, a mitocôndria passa a ocupar papel central.

Disfunção mitocondrial: o que a ciência mostra?

A mitocôndria é responsável pela produção de ATP, principal fonte de energia celular. A disfunção desse sistema energético está associada ao cansaço persistente, dor muscular e redução da capacidade de realizar atividades diárias.

Estudos em pacientes com fibromialgia demonstram alterações relevantes na função mitocondrial. Entre os principais achados, observa-se que pacientes com fibromialgia apresentam:

  • redução de aproximadamente 30% nos níveis de ATP
  • diminuição de cerca de 64% na concentração de CoQ10
  • aumento expressivo do estresse oxidativo
  • redução da atividade de enzimas antioxidantes

 

Nesse contexto metabólico, a coenzima Q10 se destaca por sua atuação na produção de energia celular. Nesse cenário, a CoQ10 merece atenção por sua relação direta com a cadeia respiratória mitocondrial.

Qual é a atuação da CoQ10 na fibromialgia?

A coenzima Q10 (CoQ10) é um componente essencial da cadeia respiratória mitocondrial. Ela participa diretamente do transporte de elétrons e da produção de ATP.

Em pacientes com fibromialgia, observa-se redução significativa dos níveis de CoQ10. Essa deficiência compromete a eficiência da produção de energia e aumenta o estresse oxidativo.

Estudos mostram que a suplementação com CoQ10 pode:

  • restaurar níveis celulares da coenzima
  • aumentar a produção de ATP
  • reduzir marcadores de estresse oxidativo
  • melhorar a atividade antioxidante

 

Esses efeitos podem contribuir para melhora da fadiga, da função muscular e da percepção de dor. Essas alterações metabólicas ajudam a explicar como a disfunção mitocondrial se traduz em sintomas percebidos pelo paciente.

Como a disfunção mitocondrial impacta os sintomas?

A redução da eficiência mitocondrial afeta diretamente a capacidade funcional do músculo e o metabolismo energético.

No músculo, observa-se:

  • menor capacidade de contração sustentada
  • fadiga precoce durante atividades simples
  • sensação de fraqueza
  • dor após pequenos esforços

 

Do ponto de vista metabólico:

  • menor produção de energia celular
  • maior acúmulo de metabólitos
  • aumento do estresse oxidativo

 

Na percepção sensorial:

  • aumento da ativação de nociceptores
  • maior sensibilidade à dor

 

Esse conjunto de alterações cria um ambiente propício à perpetuação da dor, da fadiga e da limitação funcional. Com menor eficiência energética, a fadiga deixa de ser apenas uma queixa subjetiva e passa a ter um racional metabólico.

Por que a fadiga é tão comum na fibromialgia?

A fadiga é um dos sintomas mais prevalentes na fibromialgia. Muitos pacientes relatam cansaço persistente, mesmo após períodos de descanso.

Em muitos casos, a fadiga não melhora com repouso ou sono.

Esse sintoma resulta da combinação de múltiplos fatores:

  • redução da produção de ATP
  • disfunção mitocondrial
  • sono não reparador
  • desregulação do eixo HPA
  • dor crônica persistente

 

De acordo com a literatura, cerca de 95% dos pacientes com fibromialgia apresentam sono não restaurador, fator que compromete processos de recuperação física e metabólica.

Compreender essa relação é fundamental para entender o papel da desregulação do eixo HPA na fibromialgia. Além do metabolismo energético, a resposta ao estresse também influencia fadiga, sono e percepção dolorosa.

Fibromialgia e eixo HPA: qual a relação?

Em pacientes com fibromialgia, observa-se alteração no ritmo circadiano do cortisol, caracterizada por elevação noturna e redução da amplitude diurna.

Gráfico compara o cortisol sérico em fibromialgia e controles ao longo de 24 horas, com diferenças no período noturno.
Alterações do cortisol sérico ao longo de 24 horas na fibromialgia.

Esse padrão está associado a:

  • pior qualidade do sono
  • maior percepção de dor
  • cansaço persistente
  • maior ativação do sistema de estresse

 

A combinação entre estresse crônico, alteração hormonal e sono inadequado contribui para a manutenção dos sintomas da doença.

Além disso, a exposição à elevação crônica do cortisol pode contribuir para a redução da força e da massa muscular.

A seguir, compreenda os mecanismos envolvidos. Quando essa desregulação hormonal se mantém, seus efeitos podem alcançar também o tecido muscular.

Cortisol elevado pode contribuir para perda muscular?

O cortisol, quando cronicamente elevado, pode exercer efeito catabólico sobre o músculo esquelético.

Em pacientes com fibromialgia, alterações no padrão de cortisol podem favorecer:

  • degradação proteica muscular
  • redução da força
  • pior desempenho físico
  • menor capacidade de recuperação muscular
  • aumento da fadiga

 

Além disso, o ambiente de estresse crônico contribui para resistência anabólica, dificultando a manutenção da massa muscular e a adaptação ao exercício. 

Nessas condições, torna-se relevante explorar compostos bioativos com potencial de modulação do cortisol. Diante desse eixo neuroendócrino, compostos bioativos vêm sendo estudados por seu potencial de interação com vias relacionadas ao estresse.

Compostos bioativos na modulação do eixo HPA e do cortisol

A desregulação do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HPA) está associada a alterações na resposta ao estresse, no sono, na fadiga e na percepção de dor.

Alguns compostos bioativos, como vitexina, ácido clorogênico e ácido elágico, demonstram potencial de modulação do eixo HPA, incluindo a regulação da secreção de cortisol.

A literatura científica descreve efeitos desses compostos sobre a resposta ao estresse, a neuroinflamação e a regulação do eixo HPA. Entre os efeitos fisiológicos associados, destacam-se:

  • modulação da resposta ao estresse
  • equilíbrio da atividade do eixo HPA
  • redução de marcadores de estresse oxidativo
  • efeitos neuroprotetores

 

A modulação do eixo HPA e da secreção de cortisol pode contribuir para melhora do sono, redução da fadiga e modulação da dor na fibromialgia. Ao reunir esses mecanismos, torna-se possível interpretar a fibromialgia de forma mais ampla e integrada.

Implicações clínicas: como interpretar esse cenário?

A fibromialgia não deve ser interpretada apenas como uma condição de dor. Ela envolve um conjunto de alterações que incluem:

  • disfunção energética
  • comprometimento mitocondrial
  • desregulação neuroendócrina
  • amplificação da sinalização dolorosa
  • alteração na modulação adaptativa do organismo

 

Essa compreensão amplia o raciocínio clínico e permite abordagens mais integradas. O músculo passa a ser visto não apenas como alvo da dor, mas como parte ativa da fisiopatologia. 

Essa visão integrada ajuda a compreender por que a fibromialgia envolve sintomas físicos, fadiga, alterações cognitivas e alterações emocionais simultaneamente. Essa leitura integrada reforça que a fibromialgia exige uma abordagem que vá além da dor isolada.

Fibromialgia além da dor: fadiga, músculo e eixo HPA

A fibromialgia representa uma condição complexa e multifatorial, que vai além da dor musculoesquelética.

Nesse contexto, o músculo deixa de ser apenas o local da dor e passa a integrar o eixo funcional da doença, juntamente com a mitocôndria, o sistema nervoso e o eixo neuroendócrino.

Compreender a fibromialgia sob essa perspectiva permite uma abordagem clínica mais ampla. Essa visão integrada contribui para o alívio da dor e para a melhora da função muscular, da produção de energia celular e da capacidade adaptativa do organismo.

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